
"Ninguém gosta de perder tempo imaginando o que se passa no coração das pessoas; não pensam, nem por um instante, que pra ela pode ser difícil se relacionar com os outros, apesar de conhecer, admirar e querer bem muita gente. Que ela não teria maiores dificuldades de estar em algum lugar com um ou dois amigos, e dificilmente compreenderiam o quanto ela gosta de estar só, pois é justamente quando está só que ela não está só.
Seria difícil para qualquer um entender que as vezes o difícil para ela é estar numa mesa com quatro ou cinco conhecidos, todos conversando cheios de assuntos, alegres e divertidos; que nessas ocasiões fica paralisada, muda, e que precisa fazer um enorme esforço para fingir que faz parte daquele grupo, ela que frequentemente duvida que faça parte deste mundo.
Seria difícil explicar que não existe momento em que se sinta mais só do que quando entra numa festa e se vê rodeada de pessoas, todas previsivelmente amáveis, simpáticas e superficialmente sorridentes demais. É nessas ocasiões que ela olha o relógio, pensando em quantos minutos ainda vai ter que ficar para não pegar mal, sonhando com sua cama e seu travesseiro.
Muitas vezes se sentir à vontade entre pessoas assim foi ficando raro; tão raro que ela, aos poucos, foi deixando de tentar. E não conta para ninguém o quanto é feliz tomando um drinque num bar em qualquer lugar do mundo, sozinha, observando a grande comédia humana -mas de longe, como espectadora. Até porque ninguém acreditaria."
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