Foi então que eu entendi aquelas coisas todas. Aquelas frases que te tocam lá dentro. Aqueles momentos de pausa: atônita, cansada, suspensa - o que quer que fosse - sozinha, sempre. Foi ali, naquela frase tão decorada, tão encenada, pronunciada com clareza, como se estivesse saindo depois de anos de uma caverna escura pra explicar os porquês. E não deixaria de ser assim jamais. Dizer assim, que a falta de respeito por mim mesma extrapola os limites das coisas entendiveis, que minha loucura ultrapassou o suportável e que magoar as pessoas é simples como um jogo de juntar as peças; e então o baque surdo dentro de algum lugar bem fundo ainda mais fundo que o lugar mais inacessível do coração mais gelado. Só que eu não sou gelada. E quando as coisas queimam por dentro é tão terrível que destrói tudo o que eu levo anos construindo e consertando e reparando do jeito que eu posso. Só que eu não sou perfeita. E dizer assim - que todos os ventos têm nome, porém não se conhece nenhum de perto embora se agarrem a você e desorganizem a harmonia - repetidas vezes é mais difícil do que parece quando se entende bem o que isso pode significar. Não saber fazer ninguém feliz. Não saber pra onde ir depois de rasgar o peito e dar tudo o que se pode dar. Um milhão de tentativas vãs por dia, um milhão de cortes que não fecham, um milhão de pontos que não vão virar cicatrizes, porque é simples, simplesmente dizer. É simples, simplesmente rasgar as fotos.

Estar sempre só. Por mais que se grite pra que as pessoas vejam que existe alguém ali - e elas vêem - e por mais que se abra as portas e por mais que se insista em querer ser normal, ser feliz, como faz? Entrar na vida das pessoas com uma teimosia ridicula e estragar o que elas têm de melhor. Ser escorregadia, ser insensata, ser deixada pra trás. Porque as pessoas cansam. Porque elas não suportam. Porque não faz sentido. Porque não se pode chegar perto. Não existem muros, não existem grades, só existe um nada. Um nada que tenta ser real mas nunca vai ser; porque não tem como segurar, não tem como tocar. E as vezes nem se enxerga...

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