Os lugares...

Caminho vagarosa e arrastadamente, um deserto em minha boca cobre a garganta de estilhaços de vidro morno, a saliva arranha quando desce e os olhos duros permanecem fechados a maior parte do tempo. É tudo muito seco por aqui. Procuro algo que possa matar a sede, algo que cure os lábios rachados, algo diferente de pedra e areia. Não sinto sabores há dias, não sinto nada que não seja gosto de sangue e meus dedos sujos percorrem o suor da testa, formando desenhos grotescos. As vezes não me odeio tanto. As vezes em que a noite chega sussurrando e uma brisa meio capenga fica sibilando, aí me sinto bem. Melhor seria se chovesse ou se transbordasse um pouco de água do fundo da areia dourada... eu poderia ser um animal marinho facilmente. Nesses lugares inabitáveis por onde tenho passado, cada passo queima as solas dos pés um pouco mais. Você soma misérias e mais miséria e as vezes o resultado é apenas mais miséria. Eu sei, é preciso respeitar a realidade. Foi dificil aprender isso. E mais dificil foi aprender que ela não tem nenhum motivo para nos respeitar. E se tivermos de nos arrebentar, a solução é arrebentar-se e pronto. Foi dificil aprender isso também. Mas estou aqui e minhas pegadas fundas não me deixam mentir, nem me deixam crêr em outras coisas mais. E saber que não se tem outro modo de fazer as coisas consegue ser encantador, me permito sentir a sombra das rochas e a aspereza do vento no ápice da tarde. E a mesma calma com que me arrasto insone pelos desertos me traz a certeza de que por estas paragens inóspitas eu não encontrarei absolutamente nada.

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