Hoje, tudo o que eu queria, era a minha casa. Minha casa de verdade e minha casa que há muito tempo não é mais minha. Mas é ela que eu queria. Minha casa da esquina, onde eu cresci, vivi. Parece que fiz tão pouca coisa naquela época e agora lembro de tantas coisas. Não foram todas coisas boas, mas foram coisas, são lembranças, são pessoas, são histórias. Lá eu li meus livros de romance. Eu recebi pessoas. Vi acidentes na esquina de baixo e na esquina de cima, nunca na minha esquina. Antes o muro era baixo e a gente podia ver o movimento. E a minha mãe podia conversar a vontade com a mãe do Gui, uma na janela e outra na porta, no melhor estilo “fofocando”. Na frente tinha aquelas árvores pequenas de folhas rajadas de amarelo: uma de folhas largas, outra de folha fininha. A goiabeira que produzia quilos e quilos de goiaba e a gente comia goiaba. Teve um pessegueiro que não produzia em quantidade tão grande, mas chegamos a fazer pêssegos em calda em casa. Eu cuidava dos pés de morango que ficaram no fundo, acho que nenhum morango do mundo vai ter um gosto tão bom quanto aqueles. Tinha ou talvez ainda tenha (eu não sei, faz tempo que a casa não é mais minha) o pé de araça que meu pai sempre quis. Teve pé de pitanga, pé de mamão, pé de amora a parreira que fazia sombra embaixo da caixa d'água e dava uvas docinhas uma vez ao ano. Lá tem "atrás da casa", onde eu brinquei, estudei e, em geral, fugia do calor, por onde lembro de ver o meu pai sempre chegar do trabalho, mas não sei se é uma cilada da minha memória porque não sei de datas direito. Foi lá que eu comi escondida da minha mãe açúcar com farinha de mandioca..rs, foi lá que eu um dia queberi o vidro da vizinha brincando com a funda do meu irmão, foi lá que eu cai maior tombo da minha vida, qndo aprendi andar de bicicleta. Foi lá que eu ouvi alguém me chamar quando não tinha ninguém me chamando, mas estavam querendo falar comigo até com desespero. Foi no portão que eu contei a história de um filme e percebi que ele não agradava a todos.Foi lá que eu cheguei eufórica cheia de alegria em casa e gritando: Paiii eu passei de ano, vou pra segunda série. Foi no portão que eu e a Ciliane vimos aquele disco voador. Foi lá que eu escondia minhas cartinhas, debaixo do porão. Foi lá tbm que eu descobri que as pessoas se separam. Foi lá que eu me revoltei, foi lá que eu cresci. O portão que era verde. Verde cor de alface. O portão através do qual eu vi uma das cenas mais constrangedoras que uma criança poderia ver e que pode ter sido a causa de alguns traumas. O portão que fazia um barulho característico ao abrir, o portão pequeno tinha um barulho, o portão grande tinha outro barulho e eu quase consigo ouvir os dois agora, um a um. Lembro de subir no muro, segurar na grade do portão e, com umas faixas amarradas pelo corpo, brincar de Mulher-Maravilha. Era a minha casa. Bem ou mal, era a minha casa.
Também foi ali que a meus me deram a minha primeira bicicleta (o que significa que o meu irmão ainda não tinha nascido). A bicicleta era rosa, com uma cestinha e tudo. Lembro do meu aniversário de 4 anos, acreditem! Tenho vagas lembranças, mais nunca me esqueço que ganhei uma maça lindaaa, era uma canequinha de tomar na época “kisuco” rs. Eu fiquei feliz e fiquei ali brincando. A boneca que eu ganhei, com aqueles cabelos horríveis e que cortei igual o meu, pelo ombro. Pedi opinião da minha mãe. Ela me disse assim: "Pense bem, porque se você cortar, não vai ter como deixar comprido de novo". E eu cortei. E eu me arrependi. E, se não chorei, cheguei muito perto disso. Claro que tinha um jeito de eu ganhar outra boneca, de a minha mãe colocar cabelos novos nela, entre outras coisas. Mas isso não aconteceu: fiquei com a boneca de cabelos mais curtos. E se a intenção era me ensinar ali, naquele dia, que tem coisas que não têm mais volta, não sei se a lição foi de muito proveito. Porque eu continuo querendo, pelo menos hoje, a minha casa, que já faz muito tempo que não é minha, de volta.
Hoje a casa não esta mais lá, fizeram outra, não tem mais porão, a casa é vermelha com branca, não existe mais aquele portão. O muro que eu ajudei meu pai pintar tbm tem cores novas. Mais ainda existe aquele pé de cereja que foi eu quem plante (com ajuda do meu pai). Ele ta tão lindo, e me emocionei qndo olhei e vi que ele tava lá. Lembranças boas que me enchem de saudades e emoção infinita. Cidade Mineira, foi lá que eu vivi as melhores lembranças de uma família que já foi muito feliz.
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