Quantas vezes girou a chave de casa, desejando com cada pedaço do seu corpo que ela estivesse sentada no sofá, aguardando ansiosamente por ele, carregada de um olhar apaixonado; transbordando por todos os poros, mesmo depois de tanto tempo, todas as convicções de que o amava imensamente. Respirava fundo, colocando a chave na fechadura. Quantas vezes sentiu doer cada trecho seu quando o trinco terminava a volta e via que ela não estava ali. Quando não havia o cheiro suave do seu cabelo, a sua pele exalando doçura, o pequeno sinal no seio esquerdo; o decote mais belo que já havia visto. Que graça havia em não poder abraçá-la de forma desconcertada, pedindo desculpas pelo jeito desastrado, ganhando o dia dela com um sorriso, empurrando-a carinhosamente contra a parede, esquecendo de qualquer coisa ao tocar sua cintura macia por baixo da blusa? Tantas vezes acordou contraditoriamente devastado pela falta dela enroscada em seu corpo, ao mesmo passo que saía de casa com o coração dolorido pela possibilidade de encontrá-la. Perdeu as contas das vezes em que não soube dizer qual seria pior: reencontrá-la, perfeitamente linda, encantando o dia, ou nunca mais vê-la; sem poder imaginar se ela sentia uma ponta de saudade ou guardava um punhado de boas lembranças. Seria capaz de se manter lúcido diante da vontade de afundar-se no pescoço dela, segurá-la forte e dizer que faria todo medo ir embora? Enquanto na verdade ele precisava que o medo fosse embora. Os medos do passado já haviam ido há muito tempo. Insistiam em continuar, medos futuros. De entregar-lhe o coração e não ser o bastante. De não valer a pena dizer que amou muitos amores pequenos, mas que diante de tantos abraços, não havia sentido entregar-se, se não era o gosto dela em sua boca. Em quantos momentos quis lhe dizer que não importava o tempo que passou entrelaçada com outras mãos, que esqueceria e não sentiria um resquício de incômodo por vivências sem valor como aquelas? Inúmeras vezes desejou mais uma chance para sussurrar baixinho em seu ouvido todas as palavras e saudades e birras e invenções de amor que surgiam no peito. Muitas outras vezes se calou e deixou todas essas bobagens esquecidas num canto qualquer.


Não, não foi eu quem escrevi o texto!
Essa é uma pessoa da qual o blog dela se tornou parada obrigatória pra eu me perder durante horas!
Ela escreve com a alma e isso é fascinante!!




Não sei se é pior rodar a chave esperando alguém sentado no sofá e este alguém não estar ou rodar a chave sem ter ninguém para esperar estar no sofá.
Estou no segundo caso. Rodo a chave várias vezes ao dia e nunca espero que haja alguém pq, de fato, não há ninguém q eu espere.

Nossa.
Acho q isso me deprimiu um pouco. rs
=/

Triste é quando calamos a intenção do pensamento. Quando entupimos a mente de coisas bobas para esquecer nosso querer.

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