Tudo culpa da franja...


A franja sempre cai. Ela prende aqueles cabelos, molhados ainda, nunca entendo porque. Faz um, dois nós e os fixa com qualquer coisa. Até com a caneta. Praticidade feminina, eu penso, ela diz que a franja atrapalha a concentração. Mas a franja sempre cai.

Eu me sento no sofá, cruzo as pernas, apoio uma revista no joelho e tento prender minha atenção nas minusculas letras, mas aquela franja - que eu nem sei se é uma franja - caída... Daí ela mexe a cabeça, bate o lápis em cima da folha, olha pra mim. Eu, lendo. Pelo menos fingindo bem. Faz aquela cara de desconcentrada, tentando descobrir o que atrapalha tanto. Olha pro papel de novo. Eu suspiro. É a franja, penso, essa franja nos olhos. Ela troca de posição. Resmunga que os cotovelos doem e que nunca mais desenha deitada no chão. Senta. Se encosta no sofá, bate o lápis no papel de novo.

Virei a pagina da revista, o barulho contínuo do lápis e ela... nunca sei o que ela faz quando fica quieta. Se pensa na vida, se só distrai, se busca inspiração ou se é aquela maldita franja que ela não percebe. Colocou-a pra trás das orelhas. Aí disse que precisava esquecer da vida. Fez uma cara de sapeca pra folha e mordeu o canto do lábio. Inspiração. Ela nunca percebe os pequenos detalhes. Nunca notou que eu a observo nos seus momentos de "auto-apreciação" involuntários - quando desenha ou pinta ou escreve ou canta no chuveiro. E nunca percebe aquela franja caída.

Não entendo, e também nunca me esforcei muito pra entender esse universo artístico-feminino que ela tem. Nem chega a ser complexo, tampouco bobo, mas muito misterioso pra mim. Não gosto de desvendar mistérios. Nunca gostei. Quando ví o primeira texto dela, não entendi nada. Olhei pra ela e perguntei o que significava, e ela disse que se eu olhasse com os olhos da alma, aquilo que era estranho teria um significado único pra mim, como pra todas as outras pessoas que a vissem. Aquilo foi misterioso demais. Tive medo. Não do mistério ou dela, tive medo de que ela fosse complicada. E ela é. As vezes ela diz que não consegue dormir sem antes pensar na vida. Outras vezes diz que precisa de silêncio pra pensar, senta no chão de pernas de indio e liga o som. É completamente louca. Diz que precisa ficar sozinha, resolvo deixá-la um momento sozinha e ela me enxe de questionamentos. E nunca percebe aquela franja.

Deu um suspiro que me tirou dos meus pensamentos. Estou lendo a mesma folha a mais de dez minutos. Virei a página, dei uma espiadela de canto no que ela estava fazendo. A franja tinha caído de novo e ela tinha o queixo apoiado no joelho. Olhou pra mim e dessa vez não disfarcei. Olhou pro papel, olhou pra mim, olhou pro papel e disse que estava confusa. Intrigadíssima. A respeito do quê? A respeito da vida, ela respondeu..

Não disse mais nada. Soltou o cabelo, amassou o texto, levantou e esticou os braços pra cima. Pura preguiça. Sorrí pra mim mesmo, por trás do olhar curioso que fazia. Eu a conheço tão bem... Deu-me um beijo, colocou as pantufas, foi pra cozinha. Serviu um café esfumaçante numa caneca enorme e branca com um gato desenhado, voltou pro sofá, se ajeitou no meu colo com o edredom, encostou a cabeça no meu ombro. Tomou um gole do café, disse que estava cansada e com tanta saudades, e voltou a se encostar em mim. Eu a conheço muito bem... Hãn, confusa sobre a vida... é tudo culpa dessa franja...


Eu e meu eu, deixei meu eu me observando esta noite!

7 comentários:

Anônimo disse...

Desisto de escrever!!
Mais uma vez apaixonante.

Gosto das tuas projeções e dos teus mistérios, realmente, lindo.

Anônimo disse...

cara ._.
isso com toda certeza foi a melhor coisa que eu li.
bah e especial o jeito que tu escreve e a tua capacidade de transformar coisas simples em �hn...perfeitas.
bah o Gi serio eu quero um livro teu.

Anônimo disse...

S�rio.
Com esse texto me ganhaste de vez.

lindo.
mesmo

Anônimo disse...

Foi a coisa mais bela que li nos �ltimos tempos.
Acho incr�vel a arte de apenas falar, principalmente do que n�o entendemos, e nem queremos entender.

Desisti de procurar eu-l�rico real nos teus textos, isso torna eles muito mais interessantes.

Eu t� apaixonado pelo teu texto neste momento, � doce e perturbador, � cinematogr�fico, tem imagens fortes.
E eu falo como se entendesse de imagens fortes...

Tens um dom garota!

Anônimo disse...

Falando sinceramente, pouquissima coisa me comove, sou Semi-Assentimentalista (se � que existe), mas a tua escrita e caracteriza�o ficaram perfeitas, bem como disse o Sr. anonimo al� em cima, foi a coisa mais bela que l� desde muito tempo!



T� feliz?! Conseguiste fazer um Marmanjo encher os olhos d'�gua...




Agora com licen�a... Vou ler os Textos abaixo...


Te encontrei no blog da Cl�udia, vi teu texto e nem preciso dizer que me apaixonei por este blog.

Anônimo disse...

fico lindo esse texto teu!
amei
e te amo

Anônimo disse...

Adorei "Olhou pro papel, olhou pra mim, olhou pro papel e disse que estava confusa". Sabe que tu deve reunir esses seus contos, minicontos, num livro mais adiante? Deve mesmo. S�o uma del�cia de ler.